sexta-feira, 28 de abril de 2017

Carta aberta à comunidade acadêmica Tocantinopolina sobre a interferência política negativa no projeto da UFNT

A Comissão em prol da criação da UFNT (Universidade Federal do Norte do Tocantins) nasceu a partir do Projeto de Lei 5274/2016 assinado pela presidente Dilma Roussef em maio de 2016. Este Projeto originalmente em seu teor, tem o objetivo de criar através do desmembramento dos campus de Araguaína e Tocantinópolis da UFT a nova universidade Federal localizada no Norte do Tocantins.

Bem no início das discussões sobre a adesão do Campus de Tocantinópolis ao projeto, houveram impasses, dúvidas e debates sobre o que seria melhor para este Campus. Dentre os argumentos em defesa da adesão ao projeto da UFNT, estava o de que seria melhor para Tocantinópolis fazer parte de uma universidade que inicialmente seria composta por apenas dois campus, tendo em vista os grandes problemas em vários aspectos, principalmente orçamentário, que sofre a atual UFT com seus sete campis. O Campus de Tocantinópolis nesses 13 anos sofreu grandemente com a falta de estrutura e investimento para se desenvolver, enquanto vários outros campus receberam maiores investimentos e avançaram. A comunidade acadêmica então viu no projeto a oportunidade de poder avançar em seu sonho de se consolidar e crescer.

Todo o debate a favor da entrada com unha e dentes neste projeto de uma nova universidade girou em torno da esperança de que com o desmembramento nós teríamos um campus mais forte e que pudesse virar protagonista e referência como centro universitário na região do Bico do Papagaio. Tocantinópolis resolveu então, depois de muito debate com realização de assembleia com comunidade acadêmica e discussões nos colegiados dos cursos, que iria aderir ao projeto junto com Araguaína.

Os Campus criaram suas comissões e se reuniram para criar uma comissão conjunta em prol da criação da UFNT com um objetivo claro, trabalhar em conjunto de forma democrática para aprovar o Projeto original da nova Universidade, onde constam inicialmente apenas dois campus. Nada impedindo que futuramente, depois da aprovação do projeto, com muita discussão, estudos, reuniões e audiências públicas, novos campus pudessem ser criados em outras cidades.

Nesses quase um ano de comissão da UFNT, a comissão de Tocantinópolis coletivamente em nenhum momento havia discutido a possibilidade de alterar o projeto original, pois o entendimento era que deveríamos aprovar o projeto como ele está. Pois mudar o projeto demanda alterações de previsão orçamentária e mais recursos. Isso talvez poderia criar obstáculos para uma maior fluidez na tramitação do projeto ou até mesmo para a aprovação.

Mas de repente, há quase um mês atrás, aconteceu uma grande reviravolta em torno do projeto. Sem consultar a base do movimento da UFNT, sem ampla discussão, numa atitude intransigente, a Dep. Professora Dorinha propôs uma emenda ao projeto original, onde cria 4 novos Campus, sem jamais haver pedido a opinião dos membros da comissão que já vem há muito tempo trabalhando pela criação desta universidade. É de conhecimento de todos, que é prerrogativa da deputada a proposição de emendas, mas a mesma agiu de forma estranha à relação que matinha com comissão.

É importante salientar que a comissão da UFNT não levou em consideração todas as discussões iniciais que houveram com a comunidade acadêmica para aderir ao projeto da UFNT quando resolveram não se posicionar contra a emenda, e neste momento onde o projeto pode ser alterado, não discutiu a situação com esta mesma comunidade, para saber seu posicionamento e nortear a condução dos rumos da comissão. Isso demonstra uma confusão na condução dos trabalhados e desrespeito a comunidade acadêmica, que volto a dizer, foi convencida a aderir um projeto diferente do qual vem se construindo agora.

É importante que a direção do campus de Tocantinópolis, juntamente com a comissão, chamem uma assembleia com os três seguimentos para discutir os rumos da UFNT e qual o posicionamento deve tomar a comissão diante da proposta de criação de 7 novos campus, tendo em vista que sugeriram a criação de mais 3 campus além dos quatro da emenda proposta pela deputada, fazendo com que a UFNT esteja fadada a um possível destino de precariedade na oferta de seus serviços, como é o caso hoje de Tocantinópolis que padece de problemas sérios com a falta de espaço físico e problemas estruturais de toda ordem no campus que tem mais 50 anos.

A proposta da deputada Dorinha desvirtuou o projeto inicial, causou divisão na comissão e caminha na direção oposta aos anseios da comunidade acadêmica de Tocantinópolis e da própria sociedade Tocantinopolina, que foi convencida a aderir a este projeto por acreditar que sairia inicialmente de uma realidade onde a grande quantidade de campus acabava por prejudicar o seu desenvolvimento por causa de problemas orçamentários e pela divisões políticas internas que privilegiam alguns campus em detrimento de outros.

Também é necessário observar, que é inegável a importância da interiorização do ensino superior e os benefícios que as comunidades dos municípios considerados pequenos podem ter. Mas é importante não se perder de vista as grandes implicações negativas que decorrem da criação de uma universidade com um grande número de campus, sem que haja uma discussão ampla, estudos, planejamento e fundamentalmente garantia de recursos para que campus pequenos não sofram no decorrer do tempo, das mazelas que tanto sofreu e ainda sofre o campus de Tocantinópolis nesses tantos anos que faz parte da UFT.

Tocantinópolis herdou um prédio antigo precário que foi sendo remendado durando todos esses anos para tentar realizar sua tão digna função. O papel de todos os professores e técnicos administrativos que ainda hoje aqui estão e que por aqui passaram, foi importantíssimo para oferecer, apesar dos grandes obstáculos, um ensino e serviços da melhor forma possível. Problemas como falta de salas de aula, acervo bibliográfico, laboratórios, salas adequadas para coordenações, almoxarifado, auditório, ambiente de recreação, casa do estudante, ginásio de esporte e inúmeros outros problemas estruturais tem acompanhado este campus.

Hoje Tocantinópolis se vê em um horizonte onde sua realidade pode vir a mudar a partir do momento em que fará parte de uma nova universidade, até então com dois campus, onde a princípio, por uma questão de justiça e reconhecimento da sua importância histórica e regional, deveria ter como uma das prioridades sua consolidação em todos os aspectos. Tocantinópolis é o único campus da UFT que até hoje não tem um prédio próprio, planejado, adequado e construído para atender sua comunidade acadêmica da maneira que todos sempre imaginaram e buscaram, ou seja, com extrema qualidade.

Tocantinópolis também foi um dos campus que mais demorou à implementar novos cursos de graduação. Existem aqueles que atribuem tal fato à escolha do campus em não aderir ao REUNI, mas é evidente que nesses anos também faltou empenho e vontade das Reitorias para promover a expansão e consolidação do campus de Tocantinópolis. O jogo político dentro da própria instituição é forte e faz com que os campus menos representativos acabem ficando para trás. Não deveria ser assim, por isso, uma reforma universitária talvez seja urgente na pauta da educação brasileira. É lastimável a dependência política pela qual universidades como a UFT se veem submetidas para que possam avançar e prestar um serviço de qualidade.

Haverá uma audiência pública no dia 28/04 onde estará presente a relatora do projeto na comissão de educação da câmara, a Deputada Josi Nunes, que tem a grande responsabilidade de construir o relatório final para que o projeto avance para as outras comissões. Somente a relatora neste momento pode alterar o projeto, inclusive, retirando a emenda que talvez, para este momento seja inoportuna, deixando aberto o caminho para que depois de estabelecida a tão a esperada Universidade federal do Norte Tocantins, se busque com toda cautela e equilíbrio a implementação de novos campus, levando em consideração fatores que sejam estratégicos, viáveis e que possam atender aos asseios do povo do norte do Tocantins.

Giano Guimarães 
Assistente em administração 
UFT - Campus de Tocantinópolis

terça-feira, 4 de abril de 2017

Tocantinópolis: De um passado glorioso ou de um presente triunfante?

Por Wellington da Silva Conceição

Certa vez, passando pela Praça Darcy Marinho, visualizei dois senhores, ambos de idade avançada, em um confronto verbal para defenderem suas concepções (e convicções) em torno da cidade de Tocantinópolis. Tomado por uma curiosidade de sociólogo, resolvi acompanhar essa cena tão singular. Percebi que, mais do que uma conversa entre amigos (ou inimigos), estavam em jogo ali duas concepções sobre a cidade, que observo atentamente desde que cheguei no Bico do Papagaio. Narrarei esse interessante diálogo a seguir, mesmo que não consiga transmitir o ímpeto e a emoção dedicada pelos personagens dessa ação. 

Os dois sentados, cada qual em um banco, um de frente para o outro, apresentavam seus argumentos. O primeiro deles dizia que Tocantinópolis é uma cidade atrasada. Para isso, usava uma frase muito clichê, que escuto desde que “aterrissei” por aqui, em 2015: “Tocantinópolis é a cidade do já teve”. Em seu argumento, revela-se uma representação da cidade em que, independente de qual seja o seu presente, vive das glórias de uma história sem igual, que já a colocou em destaque na região que ocupa.

O segundo discurso, de caráter otimista, dizia que Tocantinópolis não para de crescer. Certamente, tal convicção se encaixa em um outro sentimento, também difundido entre muitos moradores dessa cidade: não existe melhor lugar no mundo para se viver do que a Boa Vista do Padre João. 

Foto: Giano Guimarães (Beira rio Tocantinópolis)
Esses dois discursos, por mais interessantes que sejam, apresentam aspectos que podem ser perversos para a dinâmica política da cidade (e falo política em uma perspectiva ampla, de busca do bem comum), inclusive no campo dos direitos. No primeiro caso, o passado glorioso parece diminuir o peso de todo tipo de problema pelo qual a cidade passa. Como um entorpecente, as lembranças deixam alguns moradores anestesiados diante das mazelas presentes, e sem disposição de lutar por mudanças. O outro, é otimista diante de uma cidade que precisa se desenvolver em muitos aspectos, como se esta não precisasse de mudanças emergenciais. Políticas culturais, de turismo (com a devida valorização de seus monumentos naturais), transporte público, ampliação das especialidades médicas nos serviços de saúde, a construção de uma nova relação com os povos indígenas, a revitalização de espaços públicos, melhora do investimento e da qualidade na educação: tudo isso poderia colocar Tocantinópolis em outro patamar, tornando a cidade mais agradável para a sua população e atrativa para os de fora. Algumas dessas políticas já existem, mas ainda são pouco abrangentes ou insuficientes diante dos potenciais que a cidade apresenta.

Aliás, se entrasse naquela conversa, diria que Tocantinópolis é a cidade das potencialidades. Das potências que se perderam no passado, que ainda podem ser resgatadas, e das potências presentes, que podem ser desenvolvidas. E potencialidade que não se torna realidade, não serve para nada. Vejo as potências dessa cidade e de sua população, por exemplo, quando vejo o quadrilhódromo cheio no mês de junho. A cidade parece mais viva que no restante do ano. Será que o tocantinopolino não quer outras oportunidades de encher suas ruas, de ocupar essa beira rio que nos aproxima do tão amado Tocantins? É triste passar pelo quadrilhódromo o resto do ano e encontrar aquele espaço vazio. Passo o ano sentindo saudades da cidade que encontro fervendo nos dias da competição de quadrilhas. 

Por fim, desculpem o estrangeiro intrometido. O olhar que tenho de Tocantinópolis é bem generoso, de uma cidade que me acolheu e que tem me proporcionado experiências únicas na vida pessoal e profissional. Talvez não pudesse ser diferente: assim como vocês, sou filho de um rio, mesmo que seja do Rio de Janeiro. Ao olhar para essa cidade como de potencialidades, não nego as glórias do seu passado e nem deixo de reconhecer a graça do seu presente: só aponto que ela pode ser muito melhor para a sua população, e é isso que ela merece. 

Wellington da Silva Conceição
Professor no curso de Ciências Sociais (UFT Tocantinópolis)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...