quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Mais do que socorro, o Rio Tocantins pede nossa consciência

O relato dos pescadores e ribeirinhos mais antigos é unânime em dizer que nunca viram o nível do rio Tocantins tão baixo como ele está agora. As rochas que ficaram cobertas, talvez por centenas de anos ou mais, se mostraram. A Ilha da Santa praticamente deixou de ser uma ilha, pois suas pedras se uniram às margens que ficam do lado da cidade de Tocantinópolis. Pessoas estavam indo até a ilha a pé sem pisarem na água. Peixes morreram por ficarem presos em poças e sem oxigênio. Os pescadores ficaram com suas canoas encalhadas sem poder trabalhar. A balsa que faz a travessia de carros e pedestre parou de atravessar o rio. É desolador ver o rio seco e sem vida. Para quem vive aqui principalmente, é uma imagem impactante e triste. Todos esses impactos são assustadores.
 
Há quem diga, que a hidrelétrica não é responsável pelo que está acontecendo. É evidente que existem vários fatores que contribuem para a atual situação, mas é inegável que o impacto da barragem está diretamente ligado ao nível baixo do rio. A estiagem prolongada, poucas chuvas, assoreamento do rio, desmatamento, a grande quantidade de areia que é retirada, mudanças climáticas e principalmente a barragem que interrompe a curso normal do leito do rio podem explicar o que está acontecendo. É difícil acreditar que alguém possa negar que a ação humana tenha um papel fundamental neste processo.

O grande capital, composto pelos consorciados, investidores e demais envolvidos na construção de uma hidroelétrica, jamais irão admitir a verdadeira dimensão do impacto que um empreendimento desses terá em um rio e no meio da comunidade. Os interesses econômicos estão acima do interesse coletivo, infelizmente. A população neste processo acaba sendo vítima da propaganda enganosa, sempre acolhendo o discurso, de que o desenvolvimento e a obra serão benéficas para a comunidade e que não causará danos. Sabemos que o desenvolvimento econômico é importante e fundamental para geração de empregos e melhora nas condições de vida da população, mas a natureza e a vida das pessoas deveria estar acima de qualquer interesse. A ideia de desenvolvimento sustentável ainda é muito rejeitada e a política de diminuição de impactos deveria ser rigorosamente colocada em prática em todos os projetos que possam causar danos ao meio ambiente, mas isso ainda é absurdamente negligenciado.

O Rio Tocantins pede a consciência de todos e não apenas socorro. O socorro provavelmente virá da própria natureza, que mais uma vez tentará resistir a ação nefasta do homem, pois a chuva virá, nós esperamos. Mas se não houver uma consciência coletiva que perdure, mudando seu modo de tratar a natureza, não haverá socorro que salve este rio. Será que quando as grandes chuvas vierem e o rio voltar a um nível mais aceitável, quando vierem as praias, quando as lanchas e os jetskis voltarem a navegar o rio, quando a estrutura da época de veraneio for montada, nós iremos lembrar dessas imagens tristes? É óbvio que vamos continuar poluindo o rio, desmatando as margens, extraindo areia indiscriminadamente e não faremos nada a respeito sobre aquilo que prejudica a vida das águas. Os mananciais não tem sido cuidados, os afluentes vem sendo poluídos continuamente e o esgoto ainda é jogado no rio, quanta coisa ainda fere de morte este grande rio, e nós permanecemos letárgicos, só sentimos muito quando aparecem situações como esta que agora nos choca.

Existe um projeto para construção de uma nova barragem no rio Tocantins, logo acima de Tocantinópolis, próximo ao município de Itaguatins-TO. A barragem de Serra Quebrada como foi batizada, certamente causará um impacto socioambiental absurdamente grande. Pouco tem se falado deste empreendimento, mas já houveram visitas técnicas em Tocantinópolis para coleta de dados e avaliações dos impactos. Quantas barragens este rio suporta? Até quando ele suportará a nossa negligência e abusos? Não sabemos, mas vimos os primeiros sinais daquilo que um dia duvidamos: Os sinais do fim de nosso rio.

Giano Guimarães

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