O relato dos pescadores e
ribeirinhos mais antigos é unânime em dizer que nunca viram o nível
do rio Tocantins tão baixo como ele está agora. As rochas que
ficaram cobertas, talvez por centenas de anos ou mais, se mostraram.
A Ilha da Santa praticamente deixou de ser uma ilha, pois suas pedras
se uniram às margens que ficam do lado da cidade de Tocantinópolis.
Pessoas estavam indo até a ilha a pé sem pisarem na água. Peixes
morreram por ficarem presos em poças e sem oxigênio. Os pescadores
ficaram com suas canoas encalhadas sem poder trabalhar. A balsa que
faz a travessia de carros e pedestre parou de atravessar o rio. É
desolador ver o rio seco e sem vida. Para quem vive aqui
principalmente, é uma imagem impactante e triste. Todos esses
impactos são assustadores.
Há quem diga, que a hidrelétrica
não é responsável pelo que está acontecendo. É evidente que
existem vários fatores que contribuem para a atual situação, mas é
inegável que o impacto da barragem está diretamente ligado ao nível
baixo do rio. A estiagem prolongada, poucas chuvas, assoreamento do
rio, desmatamento, a grande quantidade de areia que é retirada,
mudanças climáticas e principalmente a barragem que interrompe a
curso normal do leito do rio podem explicar o que está acontecendo.
É difícil acreditar que alguém possa negar que a ação humana
tenha um papel fundamental neste processo.
O grande capital, composto pelos
consorciados, investidores e demais envolvidos na construção de uma
hidroelétrica, jamais irão admitir a verdadeira dimensão do
impacto que um empreendimento desses terá em um rio e no meio da
comunidade. Os interesses econômicos estão acima do interesse
coletivo, infelizmente. A população neste processo acaba sendo
vítima da propaganda enganosa, sempre acolhendo o discurso, de que o
desenvolvimento e a obra serão benéficas para a comunidade e que
não causará danos. Sabemos que o desenvolvimento econômico é
importante e fundamental para geração de empregos e melhora nas
condições de vida da população, mas a natureza e a vida das
pessoas deveria estar acima de qualquer interesse. A ideia de
desenvolvimento sustentável ainda é muito rejeitada e a política
de diminuição de impactos deveria ser rigorosamente colocada em
prática em todos os projetos que possam causar danos ao meio
ambiente, mas isso ainda é absurdamente negligenciado.
O Rio Tocantins pede a consciência
de todos e não apenas socorro. O socorro provavelmente virá da
própria natureza, que mais uma vez tentará resistir a ação
nefasta do homem, pois a chuva virá, nós esperamos. Mas se não
houver uma consciência coletiva que perdure, mudando seu modo de
tratar a natureza, não haverá socorro que salve este rio. Será que
quando as grandes chuvas vierem e o rio voltar a um nível mais
aceitável, quando vierem as praias, quando as lanchas e os jetskis
voltarem a navegar o rio, quando a estrutura da época de veraneio
for montada, nós iremos lembrar dessas imagens tristes? É óbvio
que vamos continuar poluindo o rio, desmatando as margens, extraindo
areia indiscriminadamente e não faremos nada a respeito sobre aquilo
que prejudica a vida das águas. Os mananciais não tem sido
cuidados, os afluentes vem sendo poluídos continuamente e o esgoto
ainda é jogado no rio, quanta coisa ainda fere de morte este grande
rio, e nós permanecemos letárgicos, só sentimos muito quando
aparecem situações como esta que agora nos choca.
Giano Guimarães