Ha cinco anos nos deixou um grande cidadão Tocantinopolino de coração. Um médico muito considerado pelo povo, uma figura extremamente solidária e humana. Um homem que por prazer e consciência de seu papel na transformação do lugar onde vive, resolveu se aprofundar no conhecimento dessa região, da qual, como ele mesmo diz em seus escritos, resolveu adotar e adorar.
Dr. Murilo amou essa terra, como poucos. Cuidou e se importou com essa gente como poucos. Realizou com muita dignidade e profissionalismo seu papel de Médico. Contou histórias e estórias que expressam a realidade das pessoas simples de Tocantinópolis e do Bico do papagaio. Eternizou o grande rio Tocantins em suas crônicas e poemas. Retratou com detalhes e com toda propriedade situações do cotidiano das pessoas da região. Mostrou de forma extraordinária as riquezas que essa terra dispõe.
Em 2006 Lançou seu livro “Taipoca – Contos e Crônicas”, um livro cheio fantasia e realidade. São páginas de muitas reflexões e de poesia. Para homenagear essa grande figura de nossa terra, colocamos aqui um de seus belos contos que fazem parte do seu livro. “As Quebradeiras” é o título deste belíssimo texto, rico em detalhes de nossa cultura, dramático e um retrato da simplicidade de um povo que tem orgulho de suas raízes.
AS QUEBRADEIRAS
Joel fechou-se no mais
profundo silêncio da natureza humana. A dramática realidade parece
tê-lo arrancado bruscamente, da leveza boêmia pelas estradas da
vida e do coração. De uma só vez, Noemia e Ritinha se
transformaram em duas pequenas nuvens, sumindo tristemente no ocaso
dos amores findos.
Por muitos anos, o babaçu
foi o mirrado sustento de quantos fizeram sua morada sob as palhas
desta abençoada palmeira.
As
quebradeiras de coco, na imensa região dos babaçuais, eram e são
até hoje conhecidas apenas como quebradeiras. Velhas e jovens mantêm
a rude e centenária tradição de quebrar coco no gume do machado,
tirando-lhe a amêndoa tão necessária como alimento e como produto
de comercialização.
O
extenso chão dos babaçuais engloba, principalmente, terras do
Tocantins, do Pará, do Maranhão e do Piauí. Rico é o folclore do
ciclo do coco e infindáveis são os enredos trançados com as palhas
destes coqueiros, que testemunharam o desenrolar de tantas histórias.
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Ainda
hoje, quem passar nas proximidades da grota do sucuriú, dois
quilômetros a montante da foz do Bonito, verá duas mangueiras
monumentais, vinte metros eqüidistantes de um fornido e limoso
esteio de aroeira desbotado pelo tempo, mas forte e inatingível como
há muitos anos, quando ali foi fincado como peça central de um
barracão de oito forquilhas, reduto das quebradeiras da redondeza.
Duas passadas largas, entre a segunda e a terceira forquilhas de cada
lado, marcavam uma linha imaginária que dividia o barracão ao meio,
uma vez que eram dois os seus proprietários. Em cada metade se
erguia um monte de coco e ao redor deles as respectivas quebradeiras
aninhavam-se no seu costumeiro pedaço de chão. No correr do dia
inteiro se escutavam a pancada do cacete no lombo do coco, as
gargalhadas, as cantigas, as histórias, enfim, o som da vida das
quebradeiras.
As
mangueiras, alinhadas no sentido nascente-poente, emprestavam sombra
constante ao barracão, amenizando o árduo trabalho braçal de suas
ocupantes.
Como eram
dois os proprietários, dois compradores de coco, consequentemente,
cada qual tinha o seu grupo de quebradeiras, que se rivalizavam na
quantidade de coco quebrado mas, mantinham uma amizade fraterna e
muito respeito pelas mais velhas que ali representavam as líderes de
cada grupo. A do lado nascente era a Aurora, morenona forte e sisuda
que apesar de andar beirando os setenta, era detentora da mais forte
gargalhada, entre todas elas. Trabalhava calada mas, quando escutava
um dizer verdadeiramente engraçado, sua gaitada ecoava na sombra do
cocal. Era sua maneira de dizer que também participava da
tagarelice de suas companheiras.
Mãe Luiza
era doente: sofria de pressão alta, pernas inchadas, cansaço. A
quem tentava aconselhá-la costumava responder: “ num tem quem faça
eu comer insosso, largar o café e o cachimbo e deixar de mastigar
um naquinho de carne seca no quebra-jejum e no armoço.” Apesar da
idade avançada, não deixava o velho costume de participar da
quebração de coco. Falastrona, as vezes adentrava os caminhos da
alcova e, confiada na discrição de suas comandadas,
confidenciava-lhes intimidades que muitas outras não gostavam de
comentar. Costumava dizer que seu casamento com Cirino foi tão
abençoado que até “ nas função” se acabaram por igual. Depois
de sua derradeira barriga, que foi a sétima e a mais atrapalhada,
ela quase se liquida. Inchou muito do quarto mês em diante e foi daí
que começou o desmantelo da pressão. Quebrou o resguardo devido a
uma queda que o Cirino pegara em suas esperadas, desconjuntando um pé
que o obrigou a passar um bocado de tempo com o mocotó entaniçado
com leite de atraca. Mesmo assim, arrumou umas andanças no rumo do
Descarreto, de onde só voltava tarde da noite, fedendo a cachaça e
“isalando um prifume que arripunava o meu estambo. Nunca reclamei
de nada porque eu sabia das precisão dele. Depois tudo se agasaiou e
hoje nós véve cuma Deus qué.”
Cirino era
um negrão forte, espadaúdo, desbarrigado, pinta de sangue no olho
direito. Alguma brancura na carapinha não lhe conferia velhice e,
aparentemente, estava longe das fraquezas referidas por Luizona.
Mantinha uma aparência distante que encobria, com sol de peneira sua
fama de maior arrastador de asa no rumo das sendeiras, o fraco maior
de sua vida. Um dia, numa caçada, confessara ao “ cumpade Genaro”
que sua mulher fazia era tempo que perdera a serventia na cama mas
que não a largava por nada nesse
mundo. –“ É minha companheira
véia e assim vai sê até o fim de nossos dia. Tem noite que eu fico
oiando aquele muzuá, ali duma banda, roncando devido as venta
entupida com pó de coco e o peito chacoaiando no sarro do cachimbo.
Quê havera de fazê? Não assanha mais minha paixão mas bota asa no
meu pensamento e eu saio avuando por aí a fora, praneando outros
agazáio nos braço de arguma sendêra.”
Naquela
manhã de mato molhado pelo sereno da noite de verão, a novidade foi
a chegada de Ritinha. Veio trazida pela mão de Aurora, a líder de
pouca conversa, que fez uma apresentação sumária. –“ Minhas
amigas, esta é a Ritinha, que agora vai trabalhar com a gente. Vocês
não se lembram mas ela é filha do Filisso, aquele que os índios
retalharam no facão. Teve morre-não- morre, mas terminou escapando
e, desgostoso, mudou-se lá pras bandas do Amarante. Ritinha foi
quenga por uns tempos, na Belém-Brasília, no cabaré Pisa no Freio,
depois criou vergonha e fez famia. Seu marido, muito bebedor de
cachaça e criador de embuança, foi costurado de pexêra numa briga
de bodega. Ela veio, mais os dois filhos que tem, procurar refrigero
aqui onde nasceu.”
Tipo
engraçado, a Ritinha: moreninha, beiço e unhas bem pintados de
vermelho, vestida de bermuda, bundinha arrebitada, cordão de ouro no
pescoço, brinco de argola nas orelhas, cara safada, debochada, mas
simpática como o diabo.
Luizona
foi a última a chegar. Com Cirino de uma banda, cortaram conversa o
caminho todo. Era dia do “adjutóro”dos homens no barracão. Uma
vez por semana eles vinham remontar os montes de coco. Cada qual
trazia seu jacá de ripa de taboca, trançada e arrematada com esmêro
para não se abrir com o peso do babaçu. Quando Cirino bateu os
olhos em Ritinha, sentiu um frio no espinhaço e a pinta do olho
parece que aumentou, o que não passou despercebido por Luizona, que
partiu para o ataque, inusitadamente: -“Quem é essa sirigaita de
beiço pintado, que tem um cacete na mão e outro debaixo do braço,
como se fosse mió quebradeira do que nóis?”
-“ Sei
que a senhora é dona Luiza e eu sou a Ritinha: canelinha de aroeira
/ bracinhos de mororó. / no gume do meu machado / muito pau já
virou pó.”
-“ Me
arrespeite, mulequinha atrevida, que eu não lhe dei trela pra você
me falar essas safadezas!”
-“ Não
tem safadeza nenhuma, dona Luiza, a maldade está na sua cabeça.
Veja esse cacete que a senhora tem na mão: se for tão boa
quebradeira como o povo diz, de tardinha vai ficar só o pó em redor
do machado.”
-“ É
mesmo, minha fia, me discurpe eu ter amanhecido tão azogada.
Nós somo companhêra de função e a
amizade é tão boa que não vale a pena a gente andá discutindo por
quarqué toliça.”
No fim do
trabalho daquele dia, a admiração foi geral. Um dos cacetes de
Ritinha estava reduzido a frangalhos e o segundo, quase imprestável.
A quantidade de “ bages” que ela juntara no cofo mediu vinte
pratos, o que equivale a mais de uma lata e meia. Feito
extraordinário entre as quebradeiras. Aurora, que era a mais velha,
deu notícia de uma senhora Maria Caetana, da região do Nazaré, que
chegou a quebrar trinta pratos num só dia.
Na casa
de Luizona, depois da janta, ela e o marido costumavam fumar e
prosear até a hora de dormir mas, naquela noite, o pé-de-conversa
estava difícil pois, provavelmente, não queriam falar no incidente
da Ritinha. Depois de algum silêncio, Luiza encontrou uma solução:
- “ Cirino, tu não teve mais notiça do gavião reá? Faz uns dois
mês que não escutei mais ele assubiá. Tive tanta pena quando os
indio mataram a companheira dele. Não sei como é que se faz uma
marvadeza daquela, um animá tão bonito e tão difice de andá se
vendo nos dias de hoje.
-“
Luiza, tirante o papagaio, que quando perde o companheiro ou a
companheira nunca mais se ajunta com outro, todos os bichos de pena
que andam aos casá, quando se vê sozinho, canta, canta, canta e
como ninguém arresponde ele se muda ou faz uma viagem procurando
companhia. As vêis até vorta pro mermo lugá.”
O gavião
real, gavião de penacho ou harpia é, talvez, a ave mais importante
de nossa avifauna. Com um metro de altura por dois de envergadura, a
águia brasileira, de olhar penetrante e garras poderosas, é capaz
de alçar vôo içando nas unhas um filhote de veado, um bacorinho,
um macaco-prego ou outros de porte parecido. Gosta dos horizontes
descortinados e, por isso, constroi seu ninho na copa da árvore mais
alta que houver no trecho de mata de seu domínio. Seu canto consiste
em dois silvos longos: um agudo sustenido e outro mais grave, porém,
com o mesmo comprimento: fiiiiiiiiiiiiii...êêêêêêêêêêê...
. Luizona gostava de ouvi-lo cantar na boca da noite, pousado nas
grimpas de um velho pau d’arco solteiro que se destacava no meio
do cocal.
A rotina
do barracão ficou mais animada com a presença de Ritinha. Nos
intervalos do trabalho para a merenda ou mesmo para descansar os
braços e estirar as pernas, ela costumava contar muitas passagens de
sua vida. Dois anos de escola, cinco nos cocais do Amarante, três de
Pisa no Freio e, por último, alguns meses como viúva, com dois
filhos para criar. Tinha mesmo muito o que contar. A curiosidade
maior era com as histórias do cabaré. Quando perguntada sobre a
origem de uma imensa cicatriz que tinha no braço esquerdo, Ritinha
desdobrou-se em explicações entremeadas por rasgos
filosófico existenciais. – “
Minhas amigas, a ilusão do cabaré se desmancha ligeiro demais
porque a verdade é muito diferente. Em cabaré de beira de estrada,
alegria de quenga é taca, desgosto e humilhação. Muitas vezes, é
melhor a gente tirar o serviço embriagada, porque os pontapés se
tornam mais suaves. Quem me deu este talho foi a Gerusa, que eu tinha
na conta de uma grande amiga. Ela se dava com um chefe de grupo no
serviço da estrada. Um dia ele chegou de surpresa, encontrando-a no
maior grude com um peão. Homem violento, acostumado a impor o medo
pela brutalidade, botou o peão para correr. Gerusa, agarrada pelos
cabelos, na primeira bofetada foi ao chão, quase sem sentidos. Fui
em sua defesa, e, com jeito e trejeito, convenci o seu carrasco a não
machucá-la mais. Convidei-o a tomar uma cerveja, com a intenção
única de acalmá-lo, mas Gerusa não entendeu. Levantou-se meio
atordoada, foi ao seu quarto, e, furiosa, empunhando uma faquinha de
ponta amolada como um quicé de sapateiro, apenas gritou: - larga meu
homem, puta senvergonha e riscou o meu braço, do cotovelo até a
munheca. Talho imenso, mas de pouca profundidade, que, aos cuidados
do enfermeiro da estrada, sarou sem maiores dificuldades. Ficou só
esse courinho mais alto, que o prático, muito entendido, me disse
que o nome é queloide.”
Os donos
do barracão avisaram às quebradeiras que, no dia seguinte viessem
mais arrumadas, porque os alunos da escola da barra do Bonito viriam
receber uma aula de quebração de coco e um professor da cidade iria
filmar tudo. Hábeis artesãs, as quebradeiras cortaram alguns olhos
de pindoba e com aquelas palhas amarelas e tenras confeccionaram as
lembranças que dariam aos jovens visitantes: pequenas esteiras,
abanos, cofos, chapéus e apitos. As cascas de coco foram arrumadas
em dois montes, o barracão foi varrido e a casa ficou pronta para a
aula do dia seguinte.
Algazarra
de meninos, gargalhadas das quebradeiras. Luizona, muito bem penteada
com laço de fita e outros apetrechos, vestia uma saia longa
avermelhada e cintilante. Poderia muito bem ser chamada de Marquesa
do Cocal, sem detrimento de outras marquesas que existiram por aí a
fora. Como foi escolhida a professora do dia, usou da palavra
iniciando a aula: -“ Vocês me discurpe o meu falar errado pruquê
o meu estudo foi muito pouco e serve muito má pra votar nas
inleição.” Muito pesada, ajoelhou-se primeiro para sentar-se,
depois, sobre uma esteira. Os meninos, que também tinham suas
esteirinhas, sentaram-se ao seu redor. A posição da quebradeira é
extremamente desconfortante: sentada no chão com as pernas dobradas
e enviesadas, o pé esquerdo fica praticamente debaixo da popa e o
joelho, em flexão, pressiona o cabo do machado para que este se
mantenha na vertical. A perna direita, livre, pode ficar flexionada
ou estirada conforme o cansaço da posição. O cacete, com um palmo
e meio, tem a grossura compatível com a palma da mão e é de
madeira pesada e forte, com cerne entranhado. Cortado verde, deve ser
assado na labareda, o que lhe confere maior durabilidade. A aroeira,
o mororó, o jatobá de vaqueiro, a laranjinha, o marfim, entre
outros, são os melhores.
- “
Como vocês viram, ferramenta de quebradeira é um machado bom, um
cacete ajeitado e um monte de coco zarôio. O resto o tempo ensina.”
Muitas
palmas, dos meninos e das companheiras. O professor que filmava pediu
que Luíza cantasse uma daquelas cantiguinhas que elas entoavam
quando estavam sós. Dizendo que tinha vergonha de cantar, Luizona
concordou em recitar um “ pé de uma das cantigas: - “ o cacete
trás lembrança / quando ele bate no coco / coitado do meu veinho /
era tão bom ficou pouco.” Gargalhada geral. Luizona muito corada
fez um muxoxo e recebeu o refrigerante que o menino lhe oferecera. Em
pouco tempo o barracão foi esvaziando. A meninada foi embora e as
quebradeiras voltaram às suas casas.
Aurora
pediu a seu marido, Genaro, que construísse um ranchinho para
Ritinha e seus filhos. Poderia ser ali perto mesmo. – “ Pois diga
a dona Luíza que eu mando pedir ao compadre Cirino que venha me dar
uma ajuda.”
No dia
seguinte, cedo, Cirino cruzou, no caminho, com Aurora e Ritinha. Um
rápido bom-dia, suficiente, porém, para lampejar seu olho vermelho
nos de Ritinha: um arrepio no espinhaço dela e um fogo nas orelhas
dele.
Em três
dias a palhoça estava encaibrada, no ponto de receber a palha da
cobertura e das paredes. Fazia-se necessário um terceiro
participante. Naquele dia Ritinha não foi quebrar coco, ficou
fornecendo as palhas para Genaro e Cirino amarrá-las na armação do
teto de seu barraco. Um dado momento, Genaro desceu pela escada de
bambu e foi lá mais adiante fazer uma precisão detrás de uma
moita. Cirino, de cócoras, atava, com cipó, a palha ao caibro. Com
um talo despalhado, Ritinha fez cócegas no sovaco suado do negrão.
Ele virou o rosto, sério, e apenas disse: - “ dona Ritinha, nós
precisamos ter uma conversa. Como não quero testemunha, nesses dois
dias eu passo aqui pra gente acertar como vai ser.”
Em pouco
tempo a casa ficou pronta: sala, camarinha e cozinha. Girau de vara
na porta do fundo, forquilha de pote no canto da sala. “ O resto é
serviço de muié,” no dizer de Cirino que, segurando a mão de
Ritinha e a de Genaro, perguntou: -“ Ainda se lembra, cumpade,
daquela tapage de casa que nós ajudamos lá no Santo Antonio ? Foi
um mutirão de muita gente muita cachaça e alegria. Quando foi a
boca da noite o nêgo Jacu chegou com seu pandeiro na mão. Nunca
esqueci do primeiro pé do pagode que ele puxou: - No tempo da
escravidão / o nêgo batia o chão / com o solado do pé / mas
quando chegava a noite / se enrolavam na esteira / o neguinho e a
muié / virando um novelo só / procotó, procotó, procotó.”
Ritinha abraçou Cirino, e encostando a cabeça no seu peito,
confessou estar amarrada e ferrada pelas mandingas do “ nêgo
véio.”
No dia
seguinte, o trabalho no barracão transcorreu sem maiores novidades
embora, no fim do expediente, tenha havido uma choradeira danada
quando, depois de muita insistência, Ritinha resolveu confessar o
motivo que a fizera deixar o cabaré.
Fazia
alguns meses que estava se dando, e muito bem, com um caminhoneiro
paraense, típico representante da imensa região amazônica: moreno
atarracado, cabelo preto escorrido, risonho, debochado, autêntico
comedor de “galhinha no tucupi”. A cada dez dias ele passava,
indo para São Paulo ou voltando para Belém. O pernoite era
obrigatório no Pisa no Freio, e Ritinha enfeitava-se de sonhos e
ternuras a cada passagem de seu amor de beira de estrada.
Numa
tarde bonita de presságios benfazejos, ela e o seu caminhoneiro
chegavam do ribeirão que corria ali pertinho do cabaré. Envoltos
apenas em suas toalhas, viram saltar de uma carreta uma mulher ainda
jovem, bonita, e duas crianças entre seis e oito anos, que ela
segurava pelas mãos. Joel, o caminhoneiro, correu ao quarto de
Ritinha, vestiu-se rapidamente, saindo de lá transmudado por uma
máscara de ódio e, empunhando uma arma, dirigiu-se à mulher com os
dois meninos. –“ Naquele dia em que te dei umas porradas na porta
do Xumbregão, em Paraopeba, eu te avisei que se algum dia ainda me
procurasses num cabaré seria o teu fim. Esqueceste?” E ergueu a
arma como se realmente fosse atirar. As crianças, apavoradas,
choravam abraçadas à mãe que, tresloucada, as empurrou de encontro
ao pai e correu desabalada, tentando alcançar uma casa que havia do
outro lado do asfalto. Uma freada brusca, um grito e a tragédia
estava consumada. A caminhonete que atropelou Noemia deu marcha à
ré, e o motorista, vendo Joel com um revólver na mão, desviou-se
do cadáver e sumiu na estrada.
Joel
fechou-se no mais profundo silêncio da natureza humana. A dramática
realidade parece tê-lo arrancado bruscamente da leveza boêmia pelas
estradas da vida e do coração. De uma só vez, Noemia e Ritinha se
transformaram em duas pequenas nuvens, sumindo tristemente no ocaso
dos amores findos.
Num velho
cemitério que havia ali perto, Noemia foi sepultada. Joel,
caminhando lentamente, trazia os meninos pelas mãos, como o fizera a
mãe deles em sua última chegada. Sem olhar para trás e sem dizer
uma palavra, subiu no caminhão, acomodou as crianças e partiu.
No dia
seguinte, Ritinha era apenas uma lembrança no Pisa no Freio.
Voltara
às suas origens de quebradeira. Um cordão de ouro no pescoço, um
brinco de argola nas orelhas, uma cicatriz no braço e uma ferida na
alma. Imensa ferida que jamais cicatrizaria e que, provavelmente,
pelo resto de sua vida, de vez em quando sangraria um pouco.
As
quebradeiras choraram, Ritinha também.
O dia
seguinte foi um domingo. Cirino, pretextando procurar uma espera,
ganhou o mato ainda cedo. Espingarda no ombro, facão na cintura,
saiu cortando rumo cocal a dentro, até chegar no tronco do velho pau
d’arco, onde o gavião gostava de cantar. Avivou uma velha trilha
de apanhar coco e saiu exatamente no barracão. Com o facão, fez um
marco no tronco do coqueiro que ficava bem na boca da trilha avivada.
Uma jaó cantou não muito longe e Cirino, que sabia imitá-la com
perfeição, assobiou, imitando o seu canto. Escondido atrás de um
monte de cascas de coco, espingarda no rumo, assobiou mais duas ou
três vezes e a franguinha riscou na orla do mato para receber o
chumbo fino que a transformou em saboroso presente para Ritinha. No
caminho, cortou um ramo seco de taquara, escolheu um gomo da grossura
de seu dedo mínimo, cortou-o ao meio e, com a ponta do facão, fez
um pequeno orifício dois dedos abaixo da boca do apito. Foi andando
e cortou atalho para não passar no terreiro da casa do compadre
Genaro.
- Bom
dia, dona Ritinha ! Cadê os meninos ?
- Bom
dia, seu Cirino! Os meninos foram buscar uma xícara de sal na casa
de dona Aurora.
- Apois,
o sal com esta jaó que lhe trouxe vão interar o armoço de vocês.
Para evitar falação minha demora vai ser pouca.
Retirou
do bolso o apito de taquara. Com o dedo indicador, vedou o orifício
que fizera com a ponta do facão, soprou com força e um som fino e
agudo viajou nas quebradas da mata. Sem parar de soprar, retirou o
dedo e o silvo caiu de tom, parando somente quando se igualou ao
primeiro em comprimento: fiiiiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêêê
...
- Já
sei, seu Cirino! Esse apito é igualzinho ao assovio do gavião real.
Lá onde eu morava tinha essa ave, e na escola, quando a professora
falava nela, dizia que era “ o mais soberbo falconídeo da selva
amazônica.” Só sei que por conta desse gavião moleque chiou na
palmatória até que aprendemos o que era soberbo, falconídeo,
rapinante e adunco. Quem saiu lucrando foi o Expedito, um mulatinho
nosso colega, apelidado de venta de aruá, devido ter o nariz muito
cacunda. Passou a ser chamado de falconídeo e aceitou, de muito bom
grado, o novo apelido.
- Preste
atenção, dona Ritinha! Quarta feira, quando o sol tiver pendido na
regulação das três horas, você vai escutar o gavião assobiar
duas vezes. Bote um coco de travessa no machado e dê duas pancadas
fortes. É o sinal de que escutou. Na posição que você está
sentada, bem na sua frente tem um coqueiro com uma lavragem de facão
mais ou menos na minha altura. Ali é o começo de uma vereda que
está avivada de novo. Dê uma discurpa quarqué e viaje de vereda
afora inté nóis se encontrá.
Cirino
voltou por cima do mesmo rastro. A pinta vermelha do olho direito
cintilava faíscas de contentamento. Um pouco antes de chegar em
casa, pegou o apito e, com habilidosa perfeição, imitou o soberbo
falconídeo. Mal adentrou o portal, Luizona veio ao seu encontro.
–“Meu véio, eu não assuntei direito porque tava ventando muito
mas parece que o gavião reá está de vorta.”- “ É mermo, muié!
A zuada das páia tava muito grande mas eu também escutei uma coisa
parecida.”
Na
segunda feira, parece que as quebradeiras tinham visto passarinho
verde. Estavam alegres, comunicativas e brincalhonas. São os tais
dias de alto astral, quando enxergamos a vida através da leveza dos
sentimentos e comungamos a alegria do espírito que se manifesta, até
mesmo num barracão de quebradeiras, onde a rudeza do trabalho
brutaliza a expressividade.
- “
Ritinha me arresponda / e não faça ouvido mouco / quantos cocos tem
no cacho / quantas bages tem no coco?
- “
Dona Luiza, na escola onde estudei nos ensinaram muitas coisas sobre
o babaçu. A palmeira só fica adulta quando bota o primeiro cacho, o
que só acontece com dez a doze anos de seu nascimento. Cacho
pequeno, sem forma definida e com apenas vinte ou trinta cocos.
Conforme vai ficando erada, aumenta a produção. A senhora já deve
ter reparado que aqueles coqueirões velhos de quinze a vinte metros
de altura, em nenhuma época do ano ficam sem cacho. É comum a gente
ver quatro cachos de uma vez com diferentes épocas de maturação e
uma cunca abrindo-se para nova florescência. Não sei exatamente
quantos cocos tem um cacho adulto, mas posso lhe garantir que nenhum
deles tem menos de duzentos.”
- “
Você errou a profissão, Ritinha! Em vez de quebradeira devia ser
professora.
- “
Ainda não respondi a sua pergunta toda. O coco babaçu tem de uma a
oito bages. De uma, de sete e de oito são muito raras e as de cinco
são as melhores de quebrar.”
Ritinha,
em sua impaciência, achava que as horas daquela quarta feira estavam
correndo muito devagar. Afinal, olhou o relógio, e faltava pouco
para as três. Levantou-se, saiu fora do barracão, ficou de costas
para o sol e viu que sua sombra estava da metade de sua altura.
Estava na hora. Angustiada, encostou-se numa forquilha. Um vento
manso brincava nas folhas do cocal e o marco da palmeira parecia se
transformar na pinta vermelha do olho de Cirino.
-
Fiiiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêêê .............
Fiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêê ...
Luizona
parou com a mão levantada segurando o cacete. Estranhou que o gavião
cantasse àquela hora e, principalmente, cantasse duas vezes
seguidas. Viu quando Ritinha entrou no cocal batendo na barriga como
se sua ida ao mato tivesse outra finalidade. Viu também quando ela
voltou algum tempo depois e notou que sua boca não estava mais
vermelha de batom e que seu cabelo estava meio assanhado. Luíza
balançou a cabeça como se afastasse um lampejo ruim que passara
maldando no seu pensamento. Tratou de esquecer.
Quando
chegou em casa foi logo perguntando ao Cirino onde ele estava às
três horas e se tinha escutado o gavião cantar.
- “
Não, muié! Não escutei nada. Estava muito longe, lá embaixo na
cabeceira do Imbé, olhando uns pés de mirindiba.
- “ Só
me admirou que ele tenha assobiado duas vêis seguida e você sabe
que no triviá leva um bom tempo entre um assobio e outro.
- “ As
vêis ele arrumou uma companhêra e ela tenha cantado quase iguá com
ele.
- “
Muito me admira um caçador véio como tu, prestador de atenção às
coisas do mato, não saber que a feme do gavião só dá o segundo
assobio, e assim mesmo é muito mais curto que o do macho.
Cirino,
notando a patada que dera, mudou de assunto e a conversa morreu por
ali mesmo.
A quarta
feira seguinte amanheceu sombria. Nuvens temporãs acinzentavam os
horizontes, o calor sufocava e os mosquitos atenazavam as
quebradeiras. Sufocadas, descruzaram as pernas de cima dos cabos dos
machados. Umas levantaram-se e espriguiçaram-se, outras ficaram
sentadas e os mais variados assuntos animaram a tagarelice de todas.
Luizona
começou a cantarolar uma modinha antiga. Uma companheira comentou: -
parece que o Cirinão, essa noite, andou fungando no cangote de dona
Luíza. Aurora deu uma gargalhada, Luizona respondeu: - Quá, minha
fia! Fungou foi nada, isso é coisa que se acabou há muito tempo. Se
ele ainda funga, só se for aí pelos matos debaixo de algum
coqueiro, depois do meio- dia e passou o rabo do olho no rumo de
Ritinha.
Caiu uma
chuva mansa e aconchegante. Todas voltaram ao trabalho. Um vento
brando e acariciante enxugou as folhas do cocal e o sol reluziu em
toda plenitude. Ritinha, apesar do cabelo bem penteado, dos lábios
coloridos de vermelho e do perfume no pescoço, era a máscara da
tristeza encobrindo uma profunda ansiedade que lhe apertava o peito.
Uma força misteriosa talvez lhe impedisse os passos no rumo da
trilha mas, ela queria, ardentemente, que o gavião cantasse. Cirino
não tivera oportunidade de traçar novos planos e agora estava ali
encostado no tronco do velho pau d’arco, o suor descendo na testa,
o olho vermelho cintilando e o apito entre os dedos como um
instrumento de discórdia e de indecisão...mas o desejo falou mais
alto.
-
Fiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêê ............
Fiiiiiiiiiiiiiii ... êêêêêêêêêê ...
Ritinha
levou a mão ao peito como se acariciasse as pancadas do coração em
descompasso. Não atravessou o coco no gume do machado, não deu as
duas pancadas de resposta. Apenas levantou-se e encarou Luizona. As
outras quebradeiras, pressagiando algum desentendimento, vieram
juntar-se à velha líder que, aparentando a serenidade dos bons
pensamentos, fez sinal para que Ritinha também se aproximasse, pois
queria dizer-lhe uma coisa. – “ Acho que já matei a charada,
dona Ritinha. Só queria lhe pedir o favor de levar uma lembrança
minha e entregar àquele gavião safado.” Luíza, discretamente,
enquanto falava ia puxando a aliança para bem próximo da junta
média do dedo. Sem que ninguém notasse, colocou o anelar no corte
do machado e, rapidamente, levantou a mão com o cacete, como se
fosse decepá-lo. Não fora a rapidez de Aurora, teria mesmo
consumado o seu intento.
- Que
doidice é essa, dona Luíza ! Calmamente, ela respondeu que não era
nada de mais. Apenas queria que Cirino recebesse uma lembrança sua.
Como agora ele era metade gavião e metade gente, queria mandar-lhe o
seu dedo com a velha aliança mareada pelo tempo. Talvez ele
lembrasse que esse dedo caloso e argolado por um compromisso que foi
feito perante Deus e os homens ainda valesse alguma coisa. Ritinha
foi se afastando lentamente. Duas lágrimas de fogo riscavam-lhe o
rosto. Já fora do barracão, sentindo que no peito estava prestes a
desabrochar uma flor de sangue do tamanho de Luizona, lembrou da
mulher de Joel e gritou desesperada: - “ Perdoe-me, dona Luíza!
Adeus minhas companheiras !
Correu
até sua morada, arrumou as crianças e foi esperar carona na beira
da rodagem
As
notícias que chegaram ao barracão davam conta da partida de
Ritinha. Fora vista na rodoviária de Tocantinópolis, com as
crianças, e embarcara no rumo do sul para bem longe dos cocais de
suas desventuras, como ela mesmo respondera, quando indagada para
onde ia. – “ Vou indo no destino das lonjuras, o mais distante
possível do Pisa no Freio, dos cocais, de dona Luíza e do gavião
real.
Murilo Bahia B. Vilela